(In)citação de 14 fevereiro

 

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página

E aproveito o facto de teres chegado agora

Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.

A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar

Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,

Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,

Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre

Apesar de nós.

Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema

Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado

A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,

Mesmo que a recuses

Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,

A colherei.

 

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra

E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

  

  

Daniel Faria

Dos líquidos. In Poesia

[poema selecionado por: Biblioteca Municipal de Coimbra]