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“Tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros (…)”

Miguel de Cervantes, D. Quixote. Primeira Parte, Cap. I


No puede contar tu vida, ni puede explicarla, señor mio Don Quijote,

sino quien esté tocado de tu misma loucura de no morir.

Miguel de Unamuno

 

Em 2011 A Poesia dos Dias conheceu mais uma edição, sob o título “Todo o tempo, a ler + poesia”. Ao contrário das edições de 2008, 2009 e 2010 (dedicadas a Afonso Duarte, Daniel Faria e Manuel da Silva Gaio, respectivamente), o calendário poético 2011 não foi pensado especificamente em função de uma efeméride a comemorar: bastou o desejo de continuar a ler + poesia e a trabalhar na construção do “poemário” online. As escolas de Coimbra (e o Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha, de Bissau, que se associou à iniciativa) foram incentivadas a exercer ainda mais livremente a sua criatividade, organizando as respectivas “mini-antologias” da forma que achassem mais interessante, com total liberdade para seleccionarem autores, poemas, temas. E apesar de não se apresentar como site organizado em torno de um tema unificador, o calendário poético online 2011 da BMC incluiu uma área temática intitulada 4 Elementos +1, inspirada no facto de 2011 ter sido declarado o Ano Internacional da Química. Nesta secção, a velha teoria grega dos 4 Elementos constituintes do universo apresentou-se como o fio condutor dos conteúdos apresentados, transformando-se ela mesma em matéria poética, isto é, dando o mote para a selecção/criação de “Poemas elementares” - alusivos aos “4 elementos”: ar, terra, fogo e água. Através de mini-antologias poéticas mensais de qualidade, algumas das quais contendo poemas originais de alunos e professores, A Poesia dos Dias veio, assim, mais uma vez, densificar (todo) o tempo de quem visitou o site-calendário 2011, emprestando-lhe esse “obstinado rigor” do poema de que falava Sophia de Mello Breyner.

 

Assinalando-se, em 24 de Dezembro de 2012, o 90º aniversário da inauguração da Biblioteca Municipal de Coimbra (1922/2012), a dinâmica imparável e entusiasmante de fazer do calendário poético online um projecto colectivo de fruição da leitura (designadamente através do envolvimento das escolas de Coimbra) surge necessariamente associada a esta festa de aniversário, motivando uma focalização mais evidente na temática da leitura, do livro, das bibliotecas.
            A espantosa realidade das cousas! É a minha descoberta de todos os dias!/ Cada cousa é o que é, /E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, /E quanto isso me basta. Esta confissão de Fernando Pessoa, pela boca de Alberto Caeiro, é também a confissão de quem pretende continuar a dar vida ao calendário, com o desejo de dizer, a cada novo dia “Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo/De o transformar. Este é o dia transformado/Pelo modo como apoio este dia no chão” (Daniel Faria), esse mesmo “chão” a que aludia Sophia de Mello Breyner, ao escrever que “o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulos da janela, ressonâncias das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão. (Arte Poética. In Geografia)
            Sugestivamente intitulada Elogio da Leitura, a edição 2012 de A Poesia dos Dias servirá também de pretexto (e contexto) para ensaiar, mais ou menos ludicamente/lucidamente (?), um elogio da loucura benévola/benéfica que é a paixão dos livros, da leitura - a bibliofilia transfigurando-se ou reconfigurando-se como bibliofolia, paixão (mais ou menos insana) pelos livros, que vem a ser (também e sobretudo) paixão pela vida.
            As folhas do calendário online propriamente dito (InCitação) e as demais páginas do sítio - BMC 90 anos/In’Stantes, Ver Ler, Um Modo de Ler surgem, assim,comouma pequena (biblioteca de) Babel, constituída por poemas, naturalmente, e por outro tipo de incitações alusivas ao universo da leitura: pensamentos, representações literárias, iconografia, etc. A ressonância do titulo escolhido – remetendo inevitavelmente para a obra desse mestre da ironia que foi Erasmo – impede uma interpretação meramente edificante da proposta. De facto, como ponto de confluência de lugares mais ou menos comuns sobre as potencialidades redentoras do livro, da leitura, das bibliotecas, este nosso elogio da leitura poderá ser também um exercício crítico (ou mesmo de ironia) sobre os multiformes elogios da leitura que vamos ouvindo, lendo, produzindo, uma incitação à descoberta de outros modos de ler, um exercício de reflexão/dissidência que possa remeter para uma espécie de singelo elogio da sapiência – o elogio desse tipo de loucura a que aludiu Cristina Campo (autora que nos tem acompanhado como figura quase tutelar de A Poesia dos Dias), num ensaio intitulado “O conto de fadas”:

Vence no conto o louco que raciocina ao contrário, que inverte as máscaras, que discerne na trama o fio secreto e na melodia o inexplicável jogo de ecos; que se move com estática precisão no labirinto de fórmulas, de números, de antífonas e rituais comum aos evangelhos, aos contos de fadas e à poesia (…)”; porque “acredita, tal como o santo, no caminho por sobre as águas, ou nas muralhas atravessadas por um espírito ardente. Tal como o poeta, acredita na palavra: portanto cria com ela, e dela extrai concretos prodígios.”

Nestes tempos cruéis de desesperança,
Em que a vida nos dá tão triste mote,
- Ó poetas!, unamos
O bom-senso vulgar de Sancho Pança
à loucura bem nossa do Quixote
E vamos…

Alberto de Serpa

 

BOOK E-MOTIONS


 


“BOOK”


“JOVENS-E-LIVROS"


 

Rapsódia Um Tanto Livresca

Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que julgamos deixar sem os viver, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo o que, aparentemente os preenchia para os outros, e que nós apartávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: o jogo para o qual um amigo vinha buscar-nos na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigava a levantar os olhos da página ou a mudar de lugar, a merenda que nos tinham obrigado a levar e que deixávamos ao lado sobre o banco, sem lhe tocar, enquanto que por cima da nossa cabeça, o sol diminuía de força no céu azul, o jantar por causa do qual tinha sido preciso voltar para casa e durante o qual não pensávamos senão em ir lá para cima para terminar logo a seguir, o capítulo interrompido, tudo isso, em que a leitura deveria impedir-nos de nos apercebermos senão da importunidade, pelo contrário gravava em nós uma lembrança de tal modo doce (de tal modo mais preciosa à nossa opinião presente, do que aquilo que nós líamos então com tanto amor) que, se ainda hoje nos acontece folherar esses livros de outrora, já não é senão como os únicos calendário que tínhamos guardado dos dias volvidos, e com a esperança de ver reflectidos nas suas páginas os sítios e os tanques que já não existem.
            Quem não se lembra como eu dessas leituras feitas no tempo de férias, que íamos esconder sucessivamente em todas as horas do dia assaz pacíficas e invioláveis para lhes dar asilo. De manhã, ao voltar do parque, quando toda a gente tinha ido “dar um passeio”, esgueirava-me para a sala de jantar onde, até à hora ainda longínqua do almoço, ninguém entraria senão a velha Felícia relativamente silenciosa, e onde só teria por companheiros, muito respeitosos da leitura, os pratos pintados pendurados nas paredes, o calendário cuja folha da véspera tinha acabado de ser arrancada, o pêndulo e o fogo que falam sem pedir que lhes respondam e cujas doces conversas vazias de sentido não vêm, como as palavras dos homens, introduzir um sentido diferente do das palavras que se estão a ler. Instalava-me numa cadeira, perto do lume baixo de lenha, de que, durante o almoço, o tio madrugador e jardineiro diria: Não faz mal! Suporta-se muito bem um pouco de lume; asseguro-vos que às seis horas fazia um frio bonito na horta. E dizer que estamos a uma semana da Páscoa!

Marcel Proust, Sobre a Leitura

 

 

Estás à tua secretária, tens o livro pousado como que por acaso no meio da papelada do serviço, a certa altura ao tirar um dossier depara-se-te o livro à frente dos olhos, abre-lo com ar distraído, assentas os cotovelos na mesa, apoias as têmporas nas mãos de punhos cerrados, pareces estar concentrado no exame de um processo e afinal estás mas é a explorar as primeiras páginas do romance. A pouco e pouco descansas as costas no espaldar. Ergues o livro à altura do nariz, inclinas a cadeira em equilíbrio nas pernas posteriores, abres uma gaveta lateral da secretária para pousares os pés, a posição dos pés durante a leitura é da máxima importância, estende as pernas no tampo da secretária, por cima dos processos que ficam por despachar.
            Mas não achas que é uma falta de respeito? De respeito, bem entendido, não para com o teu trabalho (ninguém pretende julgar o teu rendimento profissional; pode-se admitir que as tuas funções estejam regularmente inseridas no sistema das actividades improdutivas que ocupa tão grande parte da economia nacional e mundial), mas para com o livro. Pior ainda se pelo contrário pertenceres – por obrigação ou por amor – ao número daqueles para quem trabalhar quer dizer trabalhar a sério, cumprir – intencionalmente ou sem ser de propósito – alguma coisa necessária ou pelo menos tão inútil tanto para os outros como para ti: então o livro que trouxeste para o local de trabalho como uma espécie de amuleto ou talismã expõe-te a tentações intermitentes, poucos segundos de cada vez roubados ao objecto principal da tua atenção, seja este um perfurador de fichas electrónicas, os fogões da cozinha, as alavancas de comando de um bulldozer, ou um paciente esticado com as tripas de fora na mesa de operações.
            Em resumo, mais vale pores um freio à impaciência e esperares para abrir o livro quando estiveres em casa.

Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante

 

Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu peso – diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado. O Príncipe da Grã-Ventura, então, decidiu recolher para a cama – com um livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como doutores num Concílio […]. Torcendo molemente o bigode caminhou pôr fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças; pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino; penetrou na Revolução Francesa de onde se arredou desencantado; e palpou com mão indeliberada toda a vasta Grécia desde a criação de Atenas até à aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas almas. Não lhe apeteceu nenhuma dessas mil almas – e recuou, desconsolado, até aos Biólogos... Tão maciça e cerrada era a estante de Biologia, que o meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível! Rolou a escada – e, fugindo, trepou, até às alturas da Astronomia: destacou astros, recolocou mundos; todo um Sistema Solar desabou em fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas as obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava; para desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas; saltava pôr cima dos Problemas, pisava as Religiões; e relanceando uma linha, esgravatando além num índice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes – e, sem lhe provar a substância, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundância. Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu melancolicamente um velho Diário de Notícias, e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras

 

 

Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que “estavam preparadinhas as camas de suas Incelências”. E seguindo o bom caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Príncipe e eu, ainda há pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma abertura em arco, lôbrego arco de pedra, separava – duas enxergas sobre o soalho. Junto à cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar nem alqueire.
Lentamente, com o pé, o meu supercivilizado amigo apalpou a enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre ela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
-E o pior não é ainda a enxerga – murmurou enfim com um suspiro. – É que não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de camisa engomada.
Por inspiração minha recorremos ao Melchior. De novo esse benemérito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar os pés, uns tamancos – e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Príncipe lembrei que Platão quando compunha o Banquete, Vasco da Gama quando dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas fortes, ó Jacinto!... E é só vestido de estamenha que se penetra no Paraíso.
-Tens tu – volveu o meu amigo secamente – alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem um livro…
Eu? Um livro? Possuía apenas o velho número do Jornal do Comércio, que escapara à dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos anúncios... E quem não viu então Jacinto, senhor de Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os pés encafuados nos socos, perdido dentro das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos Paquetes – não pode saber o que é uma intensa e verídica imagem do Desalento.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras

 

            O bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo sem editor, e um professor sem discípulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e vive nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo de lata na algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e o cerca uma paz amável, não há então, em todo Francoforte, burguês mais otimista, de face mais jucunda, e o gozando mais regradamente os bens da inteligência e da Vida!... […]
Assim discursava o meu amigo no noturno silêncio de Tormes. Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou elegantes – mas eu adormecera, beatificamente envolto em Otimismo e doçura.
Em breve, porém, me fez pular, escancarar a pálpebras moles, uma rija, larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que lia o D.Quixote... Ó! Bem-aventurado Príncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o Dom divino de rir, com as facécias de Sancho!

Eça de Queirós,A Cidade e as Serras

 

 

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