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Em 2008, assinalando os 50 anos da morte de Afonso Duarte, a Biblioteca Municipal de Coimbra lançou a iniciativa “A Poesia dos Dias” - calendário poético on-line - que nesse ano, sob o título “Eu posso lá morrer, terra florida”, teve em vista homenagear este grande nome da poesia portuguesa que em Coimbra, na sua velha casa da rua João Jacinto ou à mesa do café (na Pastelaria Central, no Arcádia) manteve intenso convívio literário com várias escolas ou grupos que ao longo da primeira metade do séc. XX animaram a vida literária coimbrã.

A Poesia dos Dias 2009, foi inteiramente dedicada a homenagear um jovem poeta da geração de 90, Daniel Faria, falecido em 1999 com apenas 28 anos. Ao longo do ano, a Poesia dos Dias foi-se alimentando de poemas escolhidos de entre um número relativamente reduzido de poetas, mal ou bem reconhecidos como próximos da Poética/Do Olhar de Daniel Faria. A ideia de “afinidades electivas” como que nos foi conduzindo através de uma constelação de “imperdoáveis” constituída por nomes como Rainer Maria Rilke, Cristina Campo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Hélder, Frei Agostinho da Cruz, Eugénio de Andrade. Entre outros.

Em 2010, por sua vez, a edição do calendário poético online voltou a dar visibilidade a uma das colecções da Galeria das Doações da BMC (desta feita a estante Manuel da Silva Gaio). Assinalando os 150 anos do nascimento deste poeta de Coimbra relativamente desconhecido das novas gerações, a BMC e as escolas de Coimbra, com a colaboração da divisão de informática da CMC, criaram um site/calendário poético online com conteúdos diversificados sobre o autor de Canções de Mondego, sobre a sua biblioteca particular (na Galeria das Doações da BMC), homenageando o poeta através da disponibilização, sob a forma de calendário online, de poemas de Manuel da Silva Gaio, naturalmente, mas também de muitos outros poetas, de acordo com as preferências dos jovens leitores de poesia convidados a seleccionar “365 poemas para Manuel da Silva Gaio”.

Neste ano de 2011 A Poesia dos Dias conhece mais uma edição, desta vez sob o título “Todo o tempo”, incipit do conhecidíssimo poema de António Gedeão, poeta e homem de ciência. Ao contrário das edições precedentes, o calendário poético não foi pensado especificamente em função de uma efeméride a comemorar: basta o desejo de continuar a LER + POESIA e a preparar pequenas antologias poéticas de qualidade como as que em 2010 foram chegando mensalmente à BMC. Deste modo, as escolas de Coimbra (e o Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha, de Bissau, que este ano se associa à iniciativa) são incentivadas a exercer ainda mais livremente a sua criatividade, organizando as respectivas “mini-antologias” da forma que acharem mais interessante, com total liberdade para seleccionarem autores, poemas, temas.
Apesar de não se apresentar, este ano, como site organizado em torno de um tema unificador, o calendário poético online 2011 da BMC inclui uma área temática intitulada 4 Elementos+1, inspirada no facto de 2011 ter sido declarado o Ano Internacional da Química - uma celebração mundial das conquistas da Química e dos seus contributos para o bem estar da Humanidade, sob o tema unificador “Chemistry – our life, our future”. Nesta secção, a velha teoria grega dos 4 Elementos constituintes do Universo apresenta-se como o fio condutor dos conteúdos apresentados, transformando-se ela mesma em matéria poética, isto é, dando o mote para a selecção/criação de “Poemas elementares” - alusivos aos “4 elementos”: ar, terra, fogo e água.

Desde a névoa da manhã à névoa do outro dia, o poemário online A Poesia dos Dias vem mais uma vez densificar (todo) o tempo de quem visita o site-calendário com esse “obstinado rigor” do poema de que falava Sophia de Mello Breyner, pois que “O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida”. (Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética, In Geografia)

 

O Poema

O poema me levará no tempo

Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro VI