Sobre Manuel da Silva Gaio - Nota bio-bibliográfica

Manuel da Silva Gaio nasce em Coimbra a 6 de Maio de 1860, filho de Emília Augusta de Campos Paredes e de António da Silva Gaio, lente da Faculdade de Medicina e autor do celebrérrimo romance histórico Mário: episódios das lutas civis portuguesas de 1820-1834. Concluído o curso de Direito, inicia uma carreira burocrática, ocupando lugares administrativos em Faro, Silves, Tomar e finalmente em Lisboa, onde viverá de finais de 1887 até Maio de 1894. Aí se dedica ao jornalismo, colaborando no Novidades de Emídio Navarro e no Repórter, através de breves estudos ou notas sobre exposições de artes plásticas e sobre livros –“cristalizações de ideias e impressões sobre literatura e arte” como as que recolherá no volume Um ano de Crónica, publicado em 1889, em que se começa a conformar a sua intervenção cultural, e a sobressair a faceta de crítico. Convidado por Eça para secretariar a sua Revista de Portugal, aí actuará também enquanto colaborador e crítico, ao lado de Luís de Magalhães, como elemento da geração intervalar favorável à viragem para o novo ambiente ideológico e estético-literário que dominará o fim-de-século, sendo disso exemplo o seu artigo Os Novos: Luís de Magalhães (a propósito das suas Notas e impressões), em apoio à sua inflexão anti-naturalista [Cf. José Carlos Seabra Pereira - A obra e a acção literária de Manuel da Silva Gaio. Coimbra: Escola do poeta Manuel da Silva Gaio, 1998, p.12-13). Paralelamente, nota ainda Seabra Pereira, começa a defender a complementaridade do neo-romantismo e nacionalismo literário em relação ao “novismo”, esteticista e cosmopolita de Eugénio de Castro, começando a configurar-se como corifeu do movimento nacionalista e regionalista em Portugal. Paradigmáticas das orientações “novolusistas”, centradas na simplicidade estética e no folclorismo popularizante são as as madrigalescas Canções do Mondego, publicadas em 1891. Depois de se iniciar na narrativa com a novela Peccado Antigo (1893), regressa a Coimbra, onde até à morte viverá numa intermitência de fogachos interventivos e de apagamentos, entre ardores de corifeu literário e amargas resignações de burocrata académico [Idem, Ibidem, p. 15].

De 1895 até ao findar do século conhece um período de oscilação literária, coincidente com a participação em iniciativas de índole cosmopolita e esteticista, como a Revista Arte, que dirige com Eugénio de Castro. Ainda de acordo com Seabra Pereira, pertencem a esta fase o drama histórico Na volta da Índia – exemplo notável de lusitanismo, pela reconstituição da linguagem quinhentista –, e também O Mundo Vive de Ilusão e As Três Ironias, duas obras em que se nota o aflorar de alguns aspectos decadentistas ou simbolistas.
Em 1900, com a publicação de Mondego, vemo-lo já apóstolo assumido do neo-romantismo lusitanista. Lemano - em que talvez se encarne o próprio Silva Gaio - personifica o poeta desenraizado, salvo pelo regresso à terra natal, e por isso em condições de guiar os zagais mondeguinos, de testemunhar que a salvação está em ouvir o Mondego ..., em ir beber às fontes nacionais da inspiração, numa antecipação clara da poesia dos “velhos temas” de António Sardinha, Afonso Lopes Vieira [José Carlos Seabra Pereira, Op. Cit., p. 20].
Dos começos da sua produção novecentista salientam-se Novos Poemas (1906), publicados depois de uma antologia da sua obra poética (Versos Escolhidos -1905), várias obras de ficção narrativa, como A Dama de Ribadalva (1901) – cuja intriga se situa no tempo das invasões napoleónicas -, um malogrado projecto heteronímico intitulado As ideias de Álvaro Bruno ou Romance de um Filósofo, Últimos Crentes 1904), e Torturados (1911). Neste romance, no retrato psicológico de Miguel de Gouveia, veremos auto-retratado o próprio Silva Gaio. De entre as várias facetas de Miguel, o “psicólogo amador” Simão da Nóbrega - outra personagem da obra - sublinha esta: (...) Mundo e Vida afinal terão valor aos teus olhos sobretudo quando os contemples sob a espécie de alguma dessas creações affirmativas, dalguma dessas concepções englobantes, chamadas teorias do Existente (...) tudo subordinas – tu tão dotado de energias animais – aos direitos do Pensamento, aos interesses da philosophia e da poesia – fontes-mães dessas concepções genéricas. Mesmo que estas falhem, e tenham de desabar umas atraz das outras! Pois nunca o seu valor de invenção e o seu intuito nobremente ambicioso poderiam deixar-te indiferente como divinas revelações da intellectualidade - teu grão-fetiche. Neste intelectualismo julgou Campos de Figueiredo encontrar explicação para a escassa aceitação da obra de Manuel da Silva Gaio. De qualquer modo, contrastando com o alheamento do vasto público, é considerável o seu prestígio em círculos restritos da vida literária e cultural, que exaltam o seu papel de precursor, justamente enquanto paladino e realizador do novolusismo finissecular. Desse acolhimento encontramos exemplo na recepção de Chave Dourada (1916), proclamado por Luís de Almeida Braga “o poema do momento”.
E a admiração generalizada de que goza o autor nos círculos integralistas manifesta-se igualmente no entusiasmo com que Sardinha acolhe Da Poesia na Educação dos Gregos (1917), capítulo de um projectado livro sobre a Antiguidade Clássica. Porém, aos encómios que enaltecem as suas faculdades de escritor e mentor, como pioneiro e mestre do lusitanismo, Gaio parece reagir com tentativas de o inscrever num horizonte axiológico universalista, procurando enlaçar nacionalismo e universalismo, historicismo com criticismo histórico, rechaçando, através de uma apologia da acção em luta contra a injustiça, possíveis acusações de reaccionarismo social [José Carlos Seabra Pereira, Op. Cit., p. 30]. Deste impulso para sentimentos e ideias universais, nascem novos poemas: Dom João (versão de 1924), O Santo (1927), Sulamite (1928). E na esteira da notável monografia consagrada a Moniz Barreto, Silva Gaio dedica-se a novos estudos críticos, publicando trabalhos sobre os Vencidos da Vida (1931), ou sobre o Bucolismo em Bernardim e Cristóvão Falcão (1932-33).
Em 11 de Fevereiro de 1934, o dispersivo regressa ao Uno: Manuel da Silva Gaio morre na sua Casa da Avenida Sá da Bandeira. Anos depois, a sua livraria é depositada pelos herdeiros na Biblioteca Municipal, pondo à disposição dos seus concidadãos um valioso património bibliográfico.