Coimbra acolhe congresso internacional de homenagem a Saramago

O Convento São Francisco acolhe, até quarta-feira, o congresso internacional "José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel". O presidente da Câmara Municipal (CM) de Coimbra, Manuel Machado, participou, esta manhã, na sessão de abertura do evento, que decorreu na antiga igreja do Convento São Francisco e contou com a presença, entre outros, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, da viúva do escritor e presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e do reitor da Universidade de Coimbra (UC), João Gabriel Silva. Manuel Machado recordou o escritor português, a sua visita a Coimbra para receber a Medalha de Ouro da Cidade e deixou enormes elogios ao seu legado. Marcelo Rebelo de Sousa louvou o jovem vencedor do concurso literário sobre Saramago, Roberto Saraiva. 

Vinte anos após o anúncio da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, Manuel Machado recordou como esse reconhecimento foi importante para o país. “Os portugueses rejubilaram com o prémio porque se reconheceram na trajetória cívica e cultural que Saramago protagonizou. O início da sua vida, que lhe foi difícil e adversa; as opções políticas controversas; o espírito de trabalho, de estudo e de observação; e a defesa dos valores humanistas que ele fez através da sua poesia e da sua prosa inspiradas”, considerou o presidente da CM Coimbra, lembrando o escritor, a sua obra e alguns dos encontros que teve com José Saramago.

A passagem de Saramago por Coimbra para receber a Medalha de Ouro da Cidade, atribuída pela autarquia, foi um dos momentos recordados por Manuel Machado. “Saramago retribuiu, tendo afirmado que a homenagem que Coimbra lhe prestou constituiu ‘um dos momentos mais belos’ da sua vida. ‘Este encontro com Coimbra’ – disse ele no Salão Nobre da Câmara Municipal depois de receber a medalha – ‘é também um caso de amor!’”, recordou o presidente da autarquia, lembrando ainda a forma com Saramago se referiu à cidade. “Coimbra é uma cidade sempre à espera de ser. Tem um grande potencial, de poder ser, mas há algo que a trava no impulso. Talvez o que a trave, trave também todo o nosso país”, disse o escritor, citado hoje por Manuel Machado. “Infelizmente, José Saramago não nos deixou a sua sugestão para libertarmos melhor o nosso potencial”, concluiu o autarca, desejando um bom congresso, que surge “no momento certo, para tomarmos mais consciência do desaparecimento de José Saramago e do legado – literário e cívico – que ele nos deixou”.

Também o discurso do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, foi de elogios ao Nobel da Literatura português. “José Saramago nunca perdeu o sentido ético da existência humana. (…) Nunca deixou cair esta profunda exigência moral de justiça”, considerou o governante, acrescentando que José Saramago é “uma figura de escritor que se impõe por essa exigência ética que atravessa toda a sua obra”.

Já Marcelo Rebelo de Sousa trazia o discurso pronto, mas optou por uma improvisada abordagem. O Chefe de Estado centrou a sua intervenção no jovem vencedor do concurso literário sobre José Saramago, aluno da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, das Caldas da Rainha.

"O mais importante, hoje, aqui, chamou-se Roberto Saraiva, premiado neste concurso José Saramago. Se me permitem, com o devido respeito pelas comunicações ilustres que certamente povoarão os vossos trabalhos ao longo de tantos dias, para mim aquele momento [da intervenção do jovem aluno] valeu por todo o congresso", afirmou o Presidente da República, na sessão de abertura.

"Valeu por tudo quanto José Saramago teria gostado que fosse dito hoje e fosse sentido hoje. Valeu pela atualidade de Saramago. E valeu pela atualidade de uma mensagem que foi também uma mensagem de José Saramago", sublinhou o Chefe de Estado, concluindo que “o jovem Roberto mostrou hoje aqui porque é que Saramago não morre, porque é que Saramago nunca morrerá”.

Roberto Saraiva, o vencedor do concurso de ensaio evocativo de José Saramago, tinha discursado momentos antes do Chefe de Estado, quando João Gabriel Silva chamou ao palco os jovens vencedores do concurso promovido pela UC. O segundo prémio do concurso foi entregue a Rui Manuel da Costa Miranda, da Escola Secundária Henrique Medina, de Esposende, e o terceiro a Luís Henrique Vera da Silva Pedroso, da Escola Secundária de Emídio Navarro, de Almada.

A sessão de abertura do congresso internacional "José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel", organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da UC e pela CM Coimbra, contou ainda, entre outros, com a presença de Carlos Reis, professor da Faculdade de Letras da UC e coordenador do evento, e da vereadora da Cultura da CM Coimbra, Carina Gomes. O dia de hoje fica marcado, também, pela publicação do “Último Caderno de Lanzarote”, inédito do escritor, derradeiro volume do diário que escreveu ao longo dos 17 últimos anos de vida, quando se fixou nesta ilha das Canárias.

O evento, que termina na quarta-feira, conta com um programa bem diversificado, onde constam conferências plenárias por docentes da Universidade do Rio de Janeiro, Universidade de Leeds, Universidade de Bolonha, e a realização de mesas plenárias centradas nos temas "Personagens e identidades", "Diálogo sobre Deus e Saramago" e "Outros Saramagos: ‘transmediações’". Ao todo, durante os três dias de congresso, serão apresentadas cerca de 60 comunicações e deverão participar mais de 300 pessoas, entre docentes, investigadores, alunos e público em geral. O encerramento do congresso estará a cargo de Pilar del Río, sendo posteriormente apresentada uma adaptação dramatúrgica de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", pela companhia Éter.

CMC/Lusa