Agnaldo Farias é o curador da próxima bienal de arte contemporânea de Coimbra

Agnaldo Farias vai ser o curador da Anozero’19 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, que terá como tema o título de um conto do escritor brasileiro Guimarães Rosa, “A Terceira Margem do Rio”. A informação foi divulgada ontem numa conferência de imprensa que decorreu nas instalações do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) da Sereia. Agnaldo Farias apresentou-se, falou do porquê da escolha do tema, dos locais de que gosta e que deverão fazer parte da próxima bienal e agradeceu a oportunidade de montar uma exposição numa cidade que lhe é querida, Coimbra.

Experiência não lhe falta. Agnaldo Farias é professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, crítico de arte e curador. É, atualmente, curador geral do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, mas leva no currículo a experiência de curador no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de Exposições Temporárias do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, e de edições de diferentes bienais, como a de São Paulo, Cuenca, Veneza e Joanesburgo.

A conferência de imprensa de ontem, onde foi apresentado, contou também com a presença do diretor do CAPC, Carlos Antunes, e das entidades parceiras na organização da bienal, representadas pela vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), Carina Gomes, e pela vice-reitora da Universidade de Coimbra (UC), Clara Almeida Santos.

Carina Gomes deu as boas vindas ao novo curador e transmitiu que “é uma honra tê-lo a trabalhar connosco”. “A ideia, o conceito, o lema da terceira edição da bienal, que o Agnaldo nos propôs, convenceu-nos de imediato, faz todo o sentido”, prosseguiu a vereadora, reafirmando “o total compromisso e empenho” da autarquia com a Anozero. Carina Gomes informou ainda que se mantém a ligação à Turismo do Centro de Portugal, que está a ser acautelado o financiamento do evento e convidou Agnaldo Farias para “ficar instalado na Casa da Escrita e fazer daquela residência artística o seu local de trabalho” durante a sua estadia em Coimbra. Um convite público que o curador prontamente aceitou e agradeceu.

“É dos mais respeitáveis curadores internacionais que conheço (…) e não tenho dúvidas quanto ao seu empenho e dedicação à nossa bienal. É isso que o carateriza”, afirmou, por sua vez, Carlos Antunes. “Bem-vindo a este projeto. A fasquia está muito lá em cima, estamos muitíssimos satisfeitos, mas tenho a certeza que o Agnaldo a elevará ainda mais”, referiu Clara Almeida Santos.

 “Fiquei muito honrado com o convite. Vocês não sabem, mas lá [São Paulo] Coimbra é uma referência, é quase um mito. É uma beleza. Então, quando fui convidado, comecei até a dar-me alguma importância”, afirmou Agnaldo Farias, naquela que foi a última intervenção do encontro com os jornalistas. O curador começou por explicar a escolha do tema: “A ideia veio através de um conto que me é muito importante e também é um modo de fazer um tributo a este conto e mostrar que a possibilidade de ligação de margens está em toda a parte. A ideia muito poética de um rio atravessando a cidade, do Mondego cortando a cidade, é muito linda”, disse.

“A Terceira Margem do Rio” será, assim, o tema da Anozero’19. Uma espécie de “insight” que Agnaldo teve, tal como revelou, numa associação da terceira margem à forma como o público entende a arte. “O rio tem duas margens. Um lado da cidade de Coimbra é a primeira margem e a segunda é o momento em que a cidade se expande para a outra. O rio é fluxo, é o próprio tempo e o homem dentro do barco [alusão ao contou de Guimarães Rosa] é efémero, vai durar pouco. Mas há um modo de escapar disso, porque a espécie continua através da sucessão. As coisas são recriadas e se convertem numa novidade. E isso é como na arte, continua-se renovando, porque mostra que tudo aquilo que nós conhecemos não está esgotado, recria-se”, explicou.

Agnaldo Farias revelou, ainda, que gostava de aumentar o número de exposição da próxima edição e alguns dos locais de que gosta em Coimbra e que poderão integrar a bienal de 2019. O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova é quase certo – até porque, como informou Carlos Antunes, apesar do mosteiro fazer parte do programa REVIVE (que prevê a concessão de monumentos que são do Estado português a privados, para fins turísticos), a tutela mostrou disponibilidade para a bienal lá acontecer, numa utilização partilhada – mas o curador falou ainda de outros locais, como o Aqueduto de São Sebastião, o Jardim Botânico, a Sala da Cidade e o Edifício Chiado, não excluindo a hipótese de uma exposição no próprio rio. Contudo, afirmou, “ainda é cedo” para tomar essas decisões. “Depende da pesquisa, por isso é que já estou a preparar uma estadia em Coimbra para estudar isso com mais pormenor”, avançou.

“É preciso colocar as pessoas em contacto com aquilo que elas não entendem, com aquilo que as surpreende e que elas não sabem o que é que é. (…) Esta é a ideia, um bom tema de uma exposição é aquele que não atrapalha, aquele que serve para arejar o pensamento, as ideias, para haver perspetivas. Qual é a relação que tem a terceira margem do rio com a arte contemporânea? Sei lá, mas é lindo. O que é que nos deflagra? Qual é gatilho? Não sabemos, por isso é que é preciso expormos as pessoas à arte”, concluiu.