Ricardo Dias debateu a Canção de Coimbra no Núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra

O Núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra da Câmara Municipal de Coimbra (situado na Torre de Anto) recebeu, esta quarta-feira, Ricardo Dias (Guitarra de Coimbra – anos 90), no âmbito do ciclo de palestras organizado pelo Município, “Canção de Coimbra: Memórias e Testemunhos”, o segundo dedicado a esta temática, depois do sucesso obtido com o primeiro, “Canção de Coimbra: Cultores e Repertórios”. O especialista abordou essencialmente o seu percurso, falando dos anos em que está ligado à canção de Coimbra.

Ricardo Dias revelou que sempre viveu ao lado da guitarra de Coimbra, já que o seu pai também toca este instrumento. “Em minha casa tinha discos do Zeca, Carlos Paredes e Artur Paredes, que escutei desde muito novo”, disse. “Ler livros e ouvir discos, era um dos meus passatempos preferidos.” Ao ouvir esses discos, Ricardo Dias ficou com vontade de aprender a tocar guitarra de Coimbra. Começou por adquirir conhecimentos na Escola do Chiado, com o professor Jorge Gomes, e passou depois pela Tuna e Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra, onde voltou a encontrar Jorge Gomes, aprendeu com Álvaro Aroso e teve aulas de solfejo com o professor Travassos.

Ricardo Dias começou por se destacar nos anos 90 que, como disse, “foram marcados pelos cultores da Tuna e da Secção de Fado”. “Esta foi uma geração marcada pela oportunidade, em que houve mudanças radicais em relação aos anos 70 e 80, havendo uma despolitização da canção de Coimbra”, referiu Ricardo Dias. Concluindo a ideia, o músico afirmou “que esta geração foi marcada por um tempo próprio e tentava fazer as coisas de forma mais tertuliana”.

A entrada de Ricardo Dias para o Quarteto Académico, que mais tarde se transformaria em quinteto, partiu da vontade de fazer algo mais sério, de “querer fazer algo real”. Dessa vontade nasce um cd com alguns originais, em edição de autor, uma digressão muito marcante para si, ao Japão, e o trabalho com o agente Hélder Moutinho. É dessa vontade de todos que vem a nascer o Centro Cultural-Casa de Fados àCapella, que abre em 2003. “Este é o primeiro local onde se faz a apresentação da canção de Coimbra”, defendeu Ricardo Dias.

Para Ricardo Dias, “a turistificação de Coimbra muda a forma de estar na canção de Coimbra”. Voltando a falar dos anos 90, observou que “esta geração é a primeira a investir num projeto futuro, sendo que hoje já apareceram outros locais onde se canta e toca a canção de Coimbra”. Ao falar da atualidade, referiu: “Estamos agora num tempo de mudança em que existem erros, abusos e oportunismos, sendo necessário existir um equilíbrio estético e histórico.” “Deve-se perspetivar o futuro, sem esquecer o passado”, diria, rematando: “A canção de Coimbra não deve ser comércio, mas arte.”

Ricardo Dias é fundador, atual sócio e gerente do Centro Cultural-Casa de Fados àCapella e um dos seus guitarristas residentes. Presentemente, integra o projeto Ricardo Dias Ensemble e pertence ao grupo de fados do coro Alma de Coimbra. É professor da Escola de Guitarra, Viola e do Fado de Coimbra e possuidor de um vasto currículo musical e pedagógico, além de obra publicada.

No seu currículo artístico, enquanto guitarrista, contam-se inúmeras apresentações em Portugal e no estrangeiro.

Como compositor tem uma obra musical original extensa, com um conjunto considerável de obras de sua autoria e coautoria, assim como inúmeras participações em vários trabalhos (discográficos e videográficos) e em projetos correlacionados com a Canção de Coimbra e a guitarra portuguesa.

Iniciou-se na guitarra portuguesa, em 1985, na Escola Municipal da Casa Museu Chiado e teve como professores Jorge Gomes, Álvaro Aroso (Tuna Académica da Universidade de Coimbra - TAUC) e José Paulo (Conservatório de Coimbra). Teve a sua formação musical inicial com Travassos Cortez, na TAUC (1986-1988).

Enquanto estudante da Universidade de Coimbra integrou vários grupos da Secção de Fado da AAC e do Organismo Autónomo TAUC, pertenceu ao organismo autónomo de teatro CITAC e à Estudantina Universitária de Coimbra, sempre empenhado na atividade académica e associativa. Foi, de resto, professor e diretor, nomeadamente das escolas da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra – AAC (1994-1998) e no organismo autónomo da TAUC (1994 – 2002).

Fundou e pertenceu aos grupos “Alma Mater” (1989), “Quinteto de Coimbra” (1996), “Trio de Coimbra” (com Paulo Soares e Rui Namora, 1997) e “Coimbra Ensemble” (com João Farinha e Pedro Lopes, em 2006).

Vitorino, Janita Salomé, António Bernardino, Paulo Saraiva, Luís Goes, José Manuel Beato e Camané são alguns dos nomes relevantes com os quais já gravou ou participou em espetáculos. O trinar da sua guitarra marcou presença em cerca de duas dezenas de trabalhos discográficos e videográficos e, mais recentemente, foi convidado a colaborar no novo álbum (a ser editado em breve) da cantora Maria João, com poesia de Aldir Blanc.

O atual ciclo de palestras “Canção de Coimbra: Memórias e Testemunhos” decorrerá até novembro, sempre na última quarta-feira do mês, às 18h30.

Os critérios subjacentes à escolha dos oradores envolvidos neste ciclo tiveram como prévias considerações o facto de, para além de não haver repetição dos oradores da edição anterior, ter-se optado por cultores que começaram por envolver-se na Canção de Coimbra há 40, 30 e 20 anos, ou seja, de finais da década de 1970 até hoje. 

Trata-se de um intervalo de tempo razoável para que a distância não turve a objetividade e a cronologia dos factos, aproximando-nos dos tempos atuais, pois alguns dos cultores da presente edição estão envolvidos no circuito atual de promoção da Canção de Coimbra para turistas, o que poderá trazer mais público ao ciclo de conversas organizado pela CMC.

A calendarização próxima do ciclo de palestras “Canção de Coimbra: Memórias e Testemunhos” é a seguinte: 25 de outubro – José Rabaça (Guitarra de Coimbra – anos 80); 29 de novembro – Luís Alvéolos (Cantor – anos 90).