Um Modo de Ler

 

Santo Agostinho lendo a Carta de S. Paulo
 [aos Romanos], por Benozzo Gozzoli, 1464-65

“Como um namorado lê uma carta da sua bem-amada, é assim que deves ler as Escrituras”
S. Kierkegaard

 

Porque celebrar os 90 anos de uma Biblioteca Pública significa também comemorar o aniversário e uma instituição de cultura eminentemente vocacionada para a preservação e divulgação do património local, neste nosso Elogio da Leitura faz todo o sentido olhar Coimbra em busca de outros modos de ler, talvez um tanto esquecidos de muitos leitores contemporâneos.

Lectio significa, simultaneamente, leitura e lição, não longe da palavra inglesa “lecture”. Numa cidade universitária, poderíamos, sem dúvida, divagar, sem pretensões de erudição, em torno de fragmentos de sentido associados a práticas de ensino outrora correntes, baseadas na leitura em voz alta. Em vez disso, ensaiaremos, nesta página, uma pequena digressão em torno de um outro modo de ler, característico da cultura monástica - a LECTIO DIVINA, leitura orante das Sagradas Escrituras.

Cidade-Mosteiro… Assim definiu Coimbra Oliva Guerra, numas Evocações de sabor extemporaneamente ultra-romântico vindas a lume em 1930.
Descontando o tom da evocação, romanticamente nostálgico (ou, melhor ainda, nostalgicamente romântico) de uma certa quietude claustral, a verdade é que a expressão pode bem reciclar-se, para realçar, de forma breve e sugestiva, uma realidade inegável: a existência em Coimbra de um rico património cultural vinculado à presença multissecular de numerosas ordens religiosas.

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Recuando aos alvores da nacionalidade, a figura do primeiro santo português, S. Teotónio, primeiro prior do Mosteiro de Santa Cruz testemunha, desde logo, a atracção por um ideal de vida apostólica inspirado no ideal monástico agostiniano (de um “mosteiro de clérigos”). De facto, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra nasceu do esforço conjunto de alguns clérigos pertencentes ao Cabido da Sé de Coimbra - o Arcediago D. Telo e os Cónegos D. João Peculiar e D. Teotónio – que, animados pelo desejo de reforma do Cabido, e não conseguindo concretizá-la internamente, viriam a fundar, em 1131-1132, uma comunidade de cónegos regrantes (seguidores da regra de Santo Agostinho).

Olhar a cidade através da memória das Ordens Religiosas e do rico património que nos legaram é algo que sucede espontaneamente também ao evocar a Rainha Santa - indissociável da Ordem de Santa Clara e dos espaços conventuais habitados pelas clarissas (Santa-Clara-a-Velha e Santa Clara a Nova) – e ao recordar um outro santo português, de projecção universal, Santo António de Lisboa, de Pádua, do Mundo, e de Coimbra, também, pois que nesta cidade viveu durante algum tempo, primeiro como cónego regrante de Santa Cruz, depois como frade menor franciscano desejoso de rumar a terra de infiéis seguindo o exemplo dos Mártires de Marrocos.

 

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Além das várias casas religiosas vinculadas à família franciscana – árvore frondosa cujos ramos foram crescendo, ao longo de séculos, nas margens do Mondego (com a presença de Clarissas, Frades Menores Conventuais, Capuchinhos, Terceiros Franciscanos) - uma outra Ordem Mendicante marcaria presença na cidade: a Ordo Fratribus Predicatoribus - Ordem dos Pregadores (O.P.), fundada por S. Domingos de Gusmão. Na Lectio Divina auriam os dominicanos os frutos de contemplação que, por carisma próprio, eram chamados a transmitir aos outros (contemplata aliis tradere), através da pregação.

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Mas, se quisermos ser estritamente rigorosos na utilização do termo mosteiro/monástico, é sobretudo para a memória da grande tradição beneditina-cisterciense – também ela indissociavelmente espiritual e cultural - que deveremos voltar-nos. Na cidade, o Mosteiro de Santa Maria de Celas, fundado por D. Sancha, constitui, sem dúvida, um convite a redescobrir a grande família monástica dos filhos e das filhas do Patriarca do Ocidente, S. Bento e do grande reformador da vida beneditina, S. Bernardo, Abade de Claraval, e a remontar aos primórdios de Cister feminino em Portugal.

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Um “roteiro” beneditino-cisterciense de Coimbra e região, deverá também incluir uma referência ao mosteiro de Lorvão - primeiro mosteiro cisterciense feminino fundado em Portugal - , ao antigo Colégio de S. Bernardo, ao Colégio de S. Bento, ao mosteiro cisterciense masculino de S. Paulo de Frades, e ainda aos mosteiros de Semide e Seiça

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Uma peregrinação estética, cultural e espiritual através destes espaços deverá, naturalmente, alimentar-se do desejo de ir mais longe na busca daquilo que constituía o centro dessas vidas ritmadas pelo lema beneditino ora et labora: a atenção à Palavra das palavras, o enraizamento profundo numa verdadeira cultura da Palavra, inerente ao fim mesmo da vida monástica: Quaerere Deum – Buscar Deus.

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No seu Discurso ao Mundo da Cultura, proferido em Paris, no Collège des Bernardins, em 12 de Setembro de 2008, Bento XVI apresentou uma reflexão muito sugestiva sobre a cultura monástica. Tomando como ponto de partida da sua exposição precisamente esse local emblemático de Paris (recentemente recuperado), outrora pertencente aos monges cistercienses (os Bernardos, porque herdeiros do imenso património espiritual de S. Bernardo de Claraval), que poderíamos talvez aproximar do antigo Colégio de S. Bernardo da Rua da Sofia (situado perto do local onde hoje se ergue o Teatro da Cerca de Bernardo) ou de um outro colégio coimbrão pertencente aos filhos do Patriarca dos Monges do Ocidente – o Colégio de S. Bento, hoje Faculdade de Antropologia.

A conferência mencionada – que deu o mote para um vasto conjunto de reflexões em torno da relação entre Fé e Cultura (por parte de Júlia Kristeva, J.-R. Armogathe, A. Leproux, entre outros) – poderá proporcionar-nos um guião de leitura do património monástico de Coimbra, convidando a um aprofundamento hermenêutico do nosso itinerário através do antigo Colégio de S. Bento, do que resta do Mosteiro de S. Paulo de Almaziva (S. Paulo de Frades), do mosteiro de Santa Maria de Celas (das monjas Bernardas), do Mosteiro de Santa Cruz, etc.
Deambulando por algum destes lugares silenciosamente eloquentes, em compasso com a sucessão ritmada dos capitéis de algum claustro, com os assentos vazios de um velho cadeiral ou observando as cantarias lavradas de algum pórtico, podemos deixar-nos interpelar por eles através do eco interior da “lição” (ou colacção…) escutada sob as abóbadas do Collège des Bernardins:

«Esta tarde gostaria de vos falar das origens da teologia ocidental e das raízes da cultura europeia. (…) o lugar em que nos encontramos é de certa forma emblemático. De facto, está ligado à cultura monástica, pois aqui viveram jovens monges, esforçando-se por chegar a uma compreensão mais profunda da sua vocação e viver melhor a própria missão. Trata-se de uma experiência que ainda hoje tem interesse para nós, ou encontramo-nos somente num mundo já ultrapassado? Para responder, devemos reflectir um pouco sobre a natureza do mesmo monaquismo ocidental. De que é que se tratava na época? De acordo com a história dos efeitos do monaquismo, podemos dizer que, na grande viragem cultural produzida pela migração de povos e pelos novos ordenamentos estatais que se vinham formando, os mosteiros eram os lugares onde sobreviviam os tesouros da antiga cultura e onde, a partir dos mesmos, se vinha formando gradualmente uma nova cultura. Mas, como se verifica isto? Qual era a motivação que levava as pessoas a reunirem-se nestes lugares? Que intenções tinham? Como viveram?

Em primeiro lugar e antes de mais nada há que dizer, com muito realismo, que não era intenção deles criar uma cultura e nem mesmo conservar uma cultura do passado. A sua motivação era bem mais elementar. O seu objectivo era: quaerere Deum, buscar Deus. Na confusão dos tempo em que nada parecia resistir, eles queriam fazer o essencial: empenhar-se por encontrar aquilo que vale e sempre permanece, encontrar a mesma Vida. Andavam à procura de Deus. Queriam passar das coisas secundárias às essenciais, ao único que é verdadeiramente importante e fiável. Diz-se que estavam orientados de forma “escatológica”. Mas isto não deve ser entendido em sentido cronológico, como se olhassem para o fim do mundo ou para a própria morte, mas em sentido existencial: por detrás das coisas provisórias buscavam o definitivo. Quaerere Deum: visto que eram cristãos, não se tratava de uma expedição num deserto sem estradas, de uma busca rumo à absoluta escuridão. O mesmo Deus tinha estabelecido sinais de percurso, mais, tinha aberto um caminho, e a tarefa consistia em achá-lo e segui-lo. Este caminho era a sua Palavra que, nos livros das Sagradas Escrituras, se abria diante dos homens. Consequentemente, a procura de Deus requer por exigência intrínseca, uma cultura da palavra ou, como se exprime Jean Leclercq: no monaquismo ocidental, escatologia e gramática estão intimamente conexas uma com a outra (cf. L'amour des lettres et le désir de Dieu, p. 14). O desejo de Deus, le désir de Dieu, inclui l'amour des lettres, o amor pela palavra, o penetrar em todas as suas dimensões. Visto que, na Palavra bíblica, Deus caminha para nós e nós para Ele, é preciso aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê-la na sua estrutura e no seu modo de se exprimir. Assim, devido precisamente à procura de Deus, tornam-se importantes as ciências profanas que nos indicam as vias rumo à língua. Uma vez que a procura de Deus exigia a cultura da palavra, faz parte do mosteiro a biblioteca que indica as vias rumo à palavra. Pelo mesmo motivo, dele faz parte também a escola, onde concretamente se abrem as vias. Bento chama ao mosteiro um dominici servitii schola. O mosteiro serve para a eruditio, a formação e a erudição do homem - uma formação cujo objectivo último é fazer com que o homem aprenda a servir a Deus. Ma isto supõe precisamente também a formação da razão, a erudição, baseado na qual o homem aprende a perceber, por entre as palavras, a Palavra.»

[excerto da tradução portuguesa do Discours de Benoît XVI au monde de la cultura au Collége des Bernardins à Paris le 12 septembre 2008, disponível na World Wide Web, em http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2008/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20080912_parigi-cultura_po.html]

E assim, no âmago do Quaerere Deum monástico, encontramos um verdadeiro e muito peculiar elogio da leitura – de uma leitura sapiencial, em que todo o ser é implicado na busca d’Aquele que é, nesse esforço permanente e apaixonante de no meio das palavras, encontrar a Palavra.

 

Que é a LECTIO DIVINA?


A Lectio Divina («Leitura divina » ou leitura das coisas de Deus) consiste tradicionalmente numa leitura orante da Palavra de Deus Por extensão, pode também designar a leitura orante de autores espirituais, particularmente dos Padres e Doutores da Igreja, os escritos e vidas dos santos. Trata-se de uma importante actividade da vida monástica, recomendada por S. Bento, na sua Regra.
Segundo Armindo dos Santos Vaz, a Lectio Divina consiste em “escutar com o coração recolhido e saborear, com a consciência de ser amado, a mensagem de Deus cristalizada na Bíblia (...). É sentar-se, como Maria de Betânia, aos pés de Jesus, à escuta das suas palavras. É uma leitura vivificante, crente e orante, desinteressada e gratuita, da Palavra de Deus, uma leitura orientada para a oração e que culmina nela: como costumamos dizer que lemos um autor, a leitura divina consiste em “ler a Deus”, por estar com Ele e para trazê-lo para a vida, onde Ele está afinal, mas onde é preciso vê-lo. A ideia-chave para compreender o exercício da lectio divina é a consideração da bíblia como um organismo vivo que interpela o leitor crente de todos os tempos.” [Cf. Armindo dos Santos Vaz, A Arte de Ler a Bíblia: em louvor da “Lectio Divina”. [Lisboa]: Fundação AIS ; edições Carmelo, 2002]

Trata-sede um método de oração praticado na Igreja desde os seus primórdios, particularmente nos mosteiros beneditinos. Guigo, prior da Grande Cartuxa, na sua famosa Scala Claustralium construiu uma escada de quatro degraus, a saber:1. Lectio – Leitura; 2. Meditatio – Meditação; 3. Oratio – Oração; 4. Contemplatio – Contemplação.
Na Lectio/Leitura, toma-se o texto sagrado – um trecho da Sagrada Escritura, de preferência - e faz-se uma leitura lenta e cuidadosa do mesmo, não tanto com o objectivo de fazer uma exegese bíblica, mas sim o de 'escutar' Deus. Pode-se repetir a leitura quantas vezes for preciso, até que o leitor se sinta 'tocado' nesse diálogo de coração a coração. Na Meditatio/Meditação, “rumina-se”, mastiga-se a Palavra, buscando perceber o que é que Deus diz àquele que lê. Trata-se de 'escutar' a Palavra. "Fala, Senhor, teu servo escuta!". Na Oratio/Oração, responde-se a Deus que antes falou. Se antes se escutou, agora responde-se a Deus. Pode ser uma súplica, acção de graças, petição, o que o coração mandar. De acordo com o contexto, com a história pessoal de cada um naquele momento, deixa-se que o coração se derrame diante do Senhor. É um diálogo com Deus e uma relação entre dois seres que se amam. Na Contemplatio/Contemplação, as palavras tornam-se desnecessárias. O orante/leitor tomou contacto com o texto escrito; leu, ou melhor, 'escutou' a Voz que fala em seu coração. Responde a essa Palavra. E por fim, na Contemplação, cala-se, adora, entrega-se numa adoração muda e silenciosa.
Como observa Armindo dos Santos Vaz, as etapas da Lectio Divina estão imbricadas umas nas outras, “só se distinguem para aprofundamento do conjunto, pois a transição de uma para outra é tão suave que nalguns “leitores” não se deslinda uma da outra. A atitude interior do leitor durante uma etapa mantém-se em grande medida durante a fase seguinte; as quatro atitudes existem e actuam juntas durante todo o processo da lectio divina” (op. cit., p. 22)
Aos quatro momentos mais comummente referidos como etapas da Lectio Divina foram, por vezes, acrescentados outros três: a Discretio: discernimento, procura da vontade de Deus à luz da Palavra.; a Collatio: confronto/partilha do meu entendimento da Palavra com o de outros; a actio ou operatio: acção como efeito e fruto da Palavra.
            A Collatio, concretamente, consistindo em pequenas “conferências monásticas”, remete, por assim dizer, para a comunidade monástica enquanto “Comunidade de leitores”, em que a leitura de cada um se nutre e por sua vez alimenta a leitura dos demais, potenciando uma hermenêutica existencial que se (apro)funda na Palavra como espelho da vida, como Vida.

 

Como fazer lectio divina?

 

  • Escolher um momento apropriado (em que haja pouca probabilidade de se ser interrompido) e definir um mínimo de tempo para se entregar à lectio.
  • Escolher um texto. Pode optar-se pelas leituras do dia ou, eventualmente, por um autor espiritual de qualidade, tendo em conta que a lectio divina por excelência se vive/experimenta com a Bíblia.
  • Ler lentamente, prestando atenção ao texto tal como ele é, na sua materialidade, naquilo que ele parece querer dizer (sentido literal) ou mesmo na sua “estranheza”, no seu “desfasamento”/distanciamento cultural em relação a nós mesmos – trata-se aqui de fazer a leitura propriamente dita.
  • Deixar o texto ressoar dentro de si, sem receio de se deter longamente numa frase, numa palavra. Na Bíblia, numerosas passagens ecoam, contêm ressonâncias de outras passagens ou mesmo da nossa própria experiência. De facto, meditar o texto pode conduzir-nos para além dele.
  • O texto abre afinal à oração. Com o tempo, e sobretudo com a ajuda do Espírito Santo, Deus revela-se através da Sua Palavra, na Sua acção e em particular na vida do Seu Filho, o Verbo feito carne Evangelho de S. João, 1, 14)
  • Para concluir, podemos memorizar uma frase concreta para “ruminar” ao longo do dia, de acordo com uma prática monástica tradicional”

[tradução livre de um texto disponível no site oficial da abadia cisterciense de Bonneal (França), acessível em:
http://www.abbayebonneval.com/frame_new/communaute/lectio_divina.php  
(acedido em 13.09.2011)]

Fra Angelico. The Mockery of Christ. 

«Poderíamos baptizar este pormenor do “Cristo ultrajado”: “Lectio Divina”. Através deste S. Domingo é-nos efectivamente sugerida toda uma espiritualidade da lectio divina. Dele se desprende uma serena gravidade, de intensa vida interior; intensa… mas sem tensão. Um “fio de luz” (1 Tessalonicenses 5,5)

A estrela sobre a cabeça faz pensar na estrela milagrosa que se detém no local onde habita o Verbo… Mas esta estrela faz também pensar na “língua de fogo”, tal como desceu um dia sobre a cabeça dos Apóstolos (AC 2, 3). É uma outra maneira de representar a presença, a assistência secreta do Espírito um pouco como a pomba de S. Gregório Magno. Com esta estrela, Fra Angélico lembra-nos que a lectio divina se faz sob o Espírito Santo e sob Maria.

As mãos são longas, finas, como nos ícones orientais; a mão direita desenha um discreto gesto de abençoar, o manto pousa delicadamente numa atitude de interrogação; o leitor perscruta verdadeiramente o livro, interroga-o e interroga-se: a lectio divina é uma procura. “Fides quaerens intellectum”- a fé procurando compreender.
A mão esquerda, no eixo perpendicular da direita (as duas dimensões da cruz), prepara-se para virar a página: o livro convida a ir sempre mais longe, a compulsá-lo incessantemente da primeira à última página; é um livro que tem uma continuidade.
O livro é grande, aberto sobre os joelhos, ocupa todo o regaço deste homem sentado, o lugar dos rins e do coração que Deus perscruta. É profundamente interiorizado. A perna direita, contudo, está dobrada enquanto que a esquerda está estendida: atitude subtil de quem está preparado para se levantar e partir para fazer o que está escrito. A lectio divina desabrocha em vida
Mas não esqueçamos que este S. Domingos é apenas um pormenor de um conjunto; está sentado junto de um estrado onde está sentado o próprio Cristo, recebendo insultos e bofetadas.
É curioso notar que o leitor, em vez de olhar para Cristo, permanece mergulhado na contemplação do livro, o dedo indicador da mão direita, o intervalo entre os olhos e a estrela desenham um eixo que, se prolongado, conduz ao rosto de Cristo. O leitor descobre no livro, como num espelho, o rosto de Cristo; nele lê o cumprimento da profecia do Servo Sofredor, verifica a exactidão de “tudo o que diz respeito a Jesus” (Lc 24, 27) (…).
S. Domingos não está só aos pés de Cristo: exactamente diante dele está Maria, também ela sentada, mas sem livro. Maria já não precisa do livro, porque ela já o interiorizou e cumpriu perfeitamente. Maria é também a Igreja. E Fra Angélico pretende dizer-nos também que a lectio divina se faz na Igreja, com a Igreja”»

François Cassingena-Trévedy (moine de Ligugé)
in Quand la Parole Prend Feu : propos sur la lectio divina.
 [S.l.] : Editions Monastiques Abbaye de Bellefontaine, [1997?]

« Entregar-se à lectio divina é ir ao concerto ! Vamos escutar a “sinfonia concertante” que os Patriarcas, os Profetas, os Sábios, os Apóstolos compuseram para a recepção solene deste filho pródigo que somos, que cada um de nós é. Escuta: um tema faz a sua entrada no Génesis, doa de novo no libreto do Cântico dos Cânticos, triunfa no acorde final do Apocalipse… E tu desejarias fazer a tua lectio divina decifrando miseravelmente algumas notas com o nariz colado à partitura? Certamente, há um tempo para dividir, decifrar; mas em seguida é preciso compor, é necessário escutar a sinfonia: é impossível ler as Escrituras sem ser músico ou melómano, pelo menos um pouco!”.»
           
François Cassingena-Trévedy
Ibidem