(In)citação de 8 maio

[...] Estava de pé junto do carrinho, a tentar reanimar os dedos, quando o Christian [médico das forças da Ocupação alemã] apareceu. Ele parou o carro e fez marcha-atrás e perguntou-me se precisava de ajuda. Respondi-lhe que não, mas mesmo assim ele saiu do carro e veio ajudar-me a colocar o barril dentro do meu carrinho. Depois, sem dizer uma palavra, desceu as rochas comigo para me ajudar com o segundo barril.

Nunca tinha reparado que ele tinha um ombro e braço torcidos, mas entre isso, o meu coxear e as pedras soltas da falésia, escorregámos quando estávamos mesmo a chegar ao cimo e caímos, largando o barril. Este caiu, desfez-se ao embater nas rochas e deixou-nos ensopados.

Sabe Deus por que razão achámos aquilo engraçado, mas foi o que aconteceu. Deixámo-nos cair contra a falésia, e não conseguíamos parar de rir. Foi nesse momento que os ensaios de Elia me escorregaram do bolso e o Christian os apanhou, ensopados. «Ah, Charles Lamb», disse ele; depois entregou-me o livro. «Ele não era homem para se importar com um pouco de humidade.» A minha surpresa deve ter sido evidente, porque ele acrescentou: «Leio-o muitas vezes quando estou em casa. Invejo-o por ter uma biblioteca portátil.»

[...] voltei-me para trás e disse: «Pode levar o livro emprestado se quiser.» Quem estivesse a assistir pensaria que estava a oferecer-lhe a Lua. Apresentámo-nos e demos um aperto de mão.

 

Mary Ann Shaffer e Annie Barrows

A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata

(citação selecionada pela Escola Secundária Infanta D. Maria)