(In)citação de 24 maio

         Winston suspendeu a leitura, sobretudo para sabortear o facto de estar a ler, confortavelmente e em segurança. Encontrava-se sozinho: nem telecrã, nem ouvido colado ao buraco da fechadura, nem o impulso nervoso de espreitar por cima do ombro ou tapar a página com a mão. A suave aragem do Verão afagava-lhe o rosto. Algures, ao longe, gritos de crianças, amortecidos pela distância: no interior do quarto não se ouvia qualquer som, excepto o zumbido de insecto do relógio. Winston afundou-se na poltrona e pôs os pés sobre a guarda lareira. Era a felicidade absoluta, era a eternidade. De súbito, como fazemos às vezes com um livro que sabemos ir ler e reler cada palavra, abriu-o num sítio diferente [...]

Geoge Orwell, 1984

(citação selecionada pela Escola Secundária Infanta D. Maria)