Citações sobre a Poesia, os Poetas

Foto de Colecção particular

Como convencer o amante da irrealidade do fantasma da beleza amada? Da sua morte não é preciso convencê-lo, porque ele já a chora; mas que algo morra não quer dizer que seja, por isso, irreal.
Porque a principal questão está na morte. O filósofo desdenha as aparências porque sabe que são perecedouras. O poeta também o sabe, e por isso agarra-se com força a elas, por isso as chora antes que elas passem, chora-as enquanto as tem, porque está a sentir elas afastarem-se na própria posse. Os cabelos negros da amada vão tornando-se brancos enquanto são acariciados e os olhos vão velando imperceptivelmente o seu brilho. E por isso são mais amados, mais difíceis de abandonar.
Desta melancolia funerária das formosas aparências, o filósofo salva-se pelo caminho da razão. A razão é realmente a esperança. Mas à custa de muita renúncia. Mas o poeta não renuncia. Ninguém o convencerá a renunciar. Ninguém o consolará de ver afastar-se o dia que passa, nem o persuadirá a aceitar a conversão em cinzas dos olhos amados; o desaparecimento, na neblina do tempo, do fantasma querido. Ninguém, nem nada.

Maria Zambrano, Filosofia e poesia

 

O filósofo quer possuir a palavra, converter-se no seu dono. O poeta é um escravo; consagra-se e consome-se nela inteiramente. Fora da palavra, ele não existe, nem quer existir. Quer, quer delirar, porque no delírio a palavra brota em toda a sua pureza originária. Há que pensar que a primeira linguagem teve de ser delírio. Milagre verificado no homem, anunciação no homem já poeta, não pôde senão dizer: “Faça-se em mim” Faça-se em mim a palavra; e seja eu somente a sua sede, o seu veículo.

Maria Zambrano, Filosofia e poesia

 

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A palavra da filosofia, procurando insistentemente a segurança, esforça-se para alcançar a exactidão e com ela traçou um caminho que não pode atravessar entre a inesgotável riqueza que vai ao seu encontro. A palavra irracional da poesia, por fidelidade ao achado e ao prometido, não traça caminho algum. Vai, segundo parece, perdida. As duas palavras têm a sua raiz e a sua razão. A verdade que caminha corajosamente passo a passo, e avançando por si mesma, e a palavra que não pretende sequer ser verdade, mas somente fixar o recebido, desenhar o sono, regressar ao paraíso primitivo, ter parte dele. A palavra que significa a abertura total de uma vida, de um vivente a quem o seu corpo, a sua carne e sua alma, até o seu pensamento, só servem de instrumento, modos de propagar as coisas. Uma vida de alguém que, tendo liberdade, só a usa para regressar onde vai encontrar-se com todos. A palavra que vai de regresso.

Maria Zambrano, Filosofia e Poesia

 

Circula por aí a ideia de que a imaginação, em particular a imaginação mística, é perigosa para o equilíbrio mental das pessoas. De uma maneira geral, os poetas são considerados psicologicamente pouco fiáveis; e não é raro pensar-se que quem tece coroas de louros e as coloca na cabeça também é capaz de espetar palhas no escalpe. Ora, os factos e a história contradizem por completo esta visão. Os melhores poetas não só foram, quase todos, pessoas sãs de mente, como foram pessoas extremamente pragmáticas.

G. K. Chesterton, Ortodoxia

 

Não são os poetas que enlouquecem; são os jogadores de xadrez.

G. K. Chesterton, Ortodoxia

 

A poesia é uma actividade sã, porque voga com facilidade num mar infinito; a razão procura atravessar este mar infinito, tornando-o finito (…). O poeta pretende apenas meter a cabeça nos céus. É o lógico que quer meter os céus na cabeça. E é a cabeça do lógico que rebenta.

G. K. Chesterton, Ortodoxia

 

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A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta. Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulos da janela, ressonâncias das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão. É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. […] Se um poeta diz “obscuro”, “amplo”, “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética, In Geografia

 

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A perfeita poesia capta por vezes este momento da balança suspensa, do fio da espada, da ponta de remo em que se conciliam as antíteses. Reprodu-lo com o seu tom inconfundível de sapiência antiquíssima dentro da qual escorre e prorrompe a exultação infantil. Aí está presente tanto o sentimento do medo como o da certeza; a interrogação e a memória dialogam juntas e o vivo, no centro das suas três idades, pode discorrer em paz com os mortos. […] Foram sempre poucas as obras de poesia tão alongadas por cima do tempo humano e pouquíssimas têm data recente.

Cristina Campo, Os Imperdoáveis

 

Dantes o poeta existia para nomear as coisas: como se fosse a primeira vez, diziam-nos as crianças, como se fosse o dia da Criação. Hoje em dia ele parece existir para se despedir delas, para as recordar aos homens, terna e dolorosamente, antes que sejam extintas. Para escrever os seus nomes na água: talvez nessa mesma vaga que daí a pouco os arrastará consigo. Um parque sombroso, o verde espelho de um lago atravessado por belos gerânios dourados, no coração da cidade, da tormenta de cimento armado. Como não pensar ao olhá-lo: o último lago, o último parque sombroso? Quem hoje não tiver consciência disto, não é poeta de hoje.

Cristina Campo, Os Imperdoáveis

 

Foto by Marta Gama

História maravilhosa do Faraó Miquerinos, condenado pelos deuses a morrer jovem. Aos olhos deles não apresenta qualquer graça a sua doce clemência, que traiu o destino trágico do Egipto após as tiranias de Quéops e de Quéfrem. E ele manda iluminar os seus palácios e os seus parques com milhares de lanternas. Das noites fará outros tantos dias e assim viverá doze anos em vez dos seis que lhe restam.É certamente uma parábola do poeta, desse inimigo involuntário da lei da necessidade. O que pode fazer o poeta injustamente punido senão transformar as noites em dias, as trevas em luz? Manter em vida o que a vida nos prometeu em vão, como diria Hofmannsthal.

Cristina Campo, Os Imperdoáveis

 

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há verdadeiro poema que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para além daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

José Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos

Foto by Marta Gama

Os críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira 

Fernando Pessoa (Bernardo Soares), Livro do Desassossego

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Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência quotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objectos de sua lembrança. Se a própria existência quotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta

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