2009 –Evocar Daniel Faria, 10 anos depois

calendário poético online de homenagem a Daniel Faria

“Clareza, subtileza, agilidade, impassibilidade. Senta-te contra a parede, lê Job e Jeremias. Espera pela tua vez, toda e qualquer linha é perfeita. Toda e qualquer linha do livro imperdoável”

Cristina Campo (pseud. de Vittoria Guerrini), In Os Imperdoáveis

   “Nos antípodas da generalidade dos poetas da sua geração, Daniel Faria concebe e pratica o lirismo, na conhecida fórmula de Novalis, como elevação do homem acima de si mesmo”

Luís Adriano Carlos

Em 2008, por ocasião do cinquentenário da morte de Afonso Duarte, a Biblioteca Municipal de Coimbra lançava “A Poesia dos Dias” – calendário poético on-line - , dando a essa primeira edição da iniciativa o título “Eu posso lá morrer, terra florida!, verso do belíssimo poema “Rosas e cantigas”, de Afonso Duarte. Alimentado diariamente com um poema/excerto de poema do próprio Afonso Duarte ou de algum livro de poesia da sua biblioteca (legada à BMC em 1959), o “poemário” online 2008 pretendeu, pois, homenagear Afonso Duarte, recordar o poeta através de poemas seus, é certo, mas também de poemas da autoria de poetas que frequentou, com quem conviveu, trocou livros, partilhou a mesma paixão pela “verdade de poesia”.

Daniel Faria visto por José Rodrigues  Em 2009 passam 10 anos sobre a morte de um jovem poeta da geração de 90, Daniel Faria, falecido com apenas 28 anos, autor de «uma obra que incessantemente nos procura e conforta na nossa reconhecida condição de seres expectantes e frágeis, amanhecendo quotidianamente “sem materiais suficientes para a luz total”» (Francisco Saraiva Fino), à qual se referiu Sophia de Mello Breyner dizendo: “não são versos apenas misteriosos mas versos que põem o mistério a ressoar em redor de nós.“

A edição 2009 de A Poesia dos Dias pretende evocar este grande poeta (ainda não muito conhecido do grande público, mas já reconhecido como um dos grandes nomes da poesia portuguesa contemporânea). O calendário poético online irá reunindo, dia após dia, poemas onde se pode degustar “o sabor máximo de cada palavra”, configurando uma antologia fugaz de “Imperdoáveis” - “olhos conscientes” que se exercitaram na faculdade suprema da atenção, “olhos heróicos”, porque “fitaram a Beleza e não fugiram dela” (Cristina Campo, Os Imperdoáveis).

Para esta poeta e ensaísta italiana (ela mesma imperdoável), “imperdoável é sobretudo o poeta”, imperdoáveis são certos rostos cada vez mais raros, que dentro de pouco tempo mal serão perceptíveis e percebidos porque “muito estranhos ao contexto e ao sistema que os encerra”: Rostos que “começam já a tornar-se invisíveis, como o Graal e a lança de Longino que uma mão levou ao céu, diz-se, quando os homens deixaram de ser dignos de custodiá-los (…)”.

Porque Daniel Faria é um desses imperdoáveis, com este poemário 2009 desejamos chamar a atenção dos nossos leitores para a sua obra poética, e reunir, também, neste sítio-calendário - espaço-temp(l)o de poesia – outros “olhos heróicos” que como Daniel Faria se serviram da Palavra com o ascético e litúrgico desejo de “termos das árvores a incomparável paciência de procurar o alto/a verde bondade de permanecer e orientar os pássaros.”

O leque de escolhas é imenso, mas ousaremos insistir em alguns (poucos…) nomes. Simplesmente porque gostaríamos de ter lido com Daniel Faria vários poemas da autoria de Rainer Maria Rilke, S. João da Cruz, Cristina Campo, Frei Agostinho da Cruz, Herberto Hélder, Eugénio de Andrade, Cecília Meireles, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Novalis, José Régio, Vítor Matos e Sá, José Tolentino Mendonça, Sophia de Mello Breyner, Höllderlin, David, Salomão, Job e Jeremias…

Saciará  la sed de los humildes, por Isabel Guerra  Imagem disponível em: http://www.galeriasokoa.com/artistas/guerra/  La mirada interior,  por Isabel Guerra  Imagem disponível em: http://www.galeriasokoa.com/artistas/guerra/

Trabalho a partir da existência da luz
E de certos minerais
Mesmo se não mereço a matéria luminosa
Da terra soprada donde o homem vem. A ânfora, o vidro. E recolho
O fogo
Quando como no princípio a manhã se abeira

Trabalho a partir da ceifa matinal. Experimento
A paveia antiga do homem vergado, o rumor enxugado do líquido
Na névoa, no orvalho, na carne
Da palavra calculando o voo
Pelo reflexo sobre as águas: no início

Trabalho na água que a voz movimentou
Gerando os sismos: e sou
O húmus, o barro nas margens
O homem que nunca compreendeu

Daniel Faria, Dos líquidos