(In)citação de 31 março

 

LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

Rosas ascendem do coração trançado

das madeiras.

As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos

dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento

contra o terror que o arrebata. Os olhos contra

as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

  

  

Herberto Helder, in Ofício Cantante