(In)citação de 30 outubro

[Dia nacional de prevenção do cancro da mama]

30 de outubro de 1821 - Nasce em Moscovo o escritor Fiódor Dostoiévski (m. São Petersburgo, 09.02.1881)


     Hippolytos, que adormecera durante a peroração de Lebedev, acordou de súbito, como se alguém o houvesse aguilhoado. Estremeceu, soergueu-se e, muito pálido, lançou olhares desvairados à direita e à esquerda.
     Quando se recordou, o rosto exprimiu uma espécie de terror. - Que fazem? Vão-se embora? Acabou-se? O Sol já se levantou? - inquiriu com ansiedade, agarrando a mão do príncipe. - Que horas são? Por favor, diga-me as horas. Dormi! Foi por muito tempo? - acrescentou desesperado, como se perdesse qualquer coisa de que dependia a sua sorte.
     - Dormiu ao todo sete ou oito minutos - respondeu Euguine Pavlovich.
     Terentiev deitou-lhe um olhar ávido e pareceu não compreender.
     - Ah, só isso... Então, eu...
     Exalou um suspiro prolongado, como quem se desembaraça de um fardo. Percebera que "não acabara nada", que o dia ainda não surgira, que se tinham levantado da mesa para a ocupar novamente e que só terminara a tagarelice de Lebedev. Sorriu. Nas faces de tísico apareceram-lhe duas rosetas.
     - Ah, contou os minutos enquanto eu dormia, Euguine Pavlovich - replicou irónico o doente. - Não despegou de mim a vista durante toda a noite, bem vi! Olha, Rogojine... - Fez-lhe um sinal e disse ao ouvido do príncipe : - Acabo de sonhar com ele. Ah - tornou a interromper-se -, onde está o orador, o Lebedev? Já teria acabado? De que é que falou? É verdade, príncipe, haver dito um dia que o mundo será salvo pela beleza? Meus senhores, o príncipe pretende que será a beleza a salvadora do mundo! Eu para mim tenho que a ele ocorrem pensamentos joviais por estar apaixonado. Meus senhores, está apaixonado! Percebi isso logo que entrou. Não core, príncipe. Senão, lastimálo- ia. Qual é essa beleza que há-de salvar o mundo? Foi Kolia quem me disse... É cristão praticante? Kolia alega que o senhor se intitula cristão...
     Mychkine observou-o atentamente, mas esqueceu-se de lhe responder.

 

Fiodor Dostoievski, O Idiota. Trad. Maria Franco.  Lisboa : Estúdios Cor,1969. Vol. II, pp. 113-114.