(In)citação de 04 julho

[4 de julho, Festa de Santa Isabel de Portugal, a Rainha Santa - Festas da Cidade de Coimbra]

 

A padroeira

 

Rainha Santa. Pelas ruas fora,

Desliza a Procissão, solenemente...

Vai atrás muito povo, muita gente,

Que o povo todo, toda a gente a implora!

 

Se o rubro Sol de Julho já descora,

De o ter beijado, a Terra acha-se ardente;

Foguetes sobem e estralejam, rente

Do céu... na glória do ar, fluida e sonora.

 

Sobre o andor, a Rainha entra na ponte...

Repercute, em seus ecos, cada monte

Salmos, hinos de sinos sobranceiros.

 

Na religiosidade da paisagem,

Que não perturba a mais pequena aragem,

Até rezam, curvados, os salgueiros.

 

 

Alberto de Monsaraz (1889-1959)

In Coimbra Cheia de Graça

 


      "Pois gosto de Coimbra; e, quando chegar a hora da autobiografia, a que até têm direio os escribas mofinos e intermitentes, direi que aqui amei e me nasceram os filhos, para justificar o plano esfumado e negligente em que deixo a terra natal. Todos os actores gostam dos palcos onde se demoram mais tempo, e o último tende a acamar por cima do primeiro como os estratos geológicos que deixam a terra à flor. É ternura e apego à fragilidade de cada dia; o jogo dúplice entre a efemeridade e o eterno.

      Como hei-de esquecer a trapeira onde escrevi os primeiros contos e o caminho das Sete Fontes (recorda-se?), que leva ao Penedo da Meditação?. O meu Amigo relembra as campainhas de barro de Santo António dos Olivais, e todos nós recordamos esta suave esgarçadora de retiros e de betesgas que compõe o corpo de Coimbra. São azulejos, fontes, pedras, lentes e verdiais. É o peixe frito, o amor, um chapelete e um chumbo. É todo o adereço da mocidade.

      Já de garoto eu trazia, para juxtapor ou corrigir, imagens esparsas da celebérrima Coimbra, que, de falada, logrou chegar aos ouvidos cosmoplitas de Voltaire e Barrès. [...]  

      Isto é uma terra da mocidade, e não há velhice nem ultrage turístico que consiga encarquilhar o seu alto corpo de deusa. [...]."

 

 

Vitorino Nemésio, "Torre de Anto a Sub-Ripas: carta a Alberto de Oliveira",

in Sob os Signos de Agora